Quarta-feira, 30 de Novembro de 2011

"If you love somebody set them free"- O Testemunho da Rita

Dizer que se termina uma relação é difícil. As palavras nunca são as correctas e, tantas vezes, a razão é apenas uma: não há mais amor para dar. Acabou. Seguimos rumos diferentes. Mesmo que o outro possa consentir, a verdade é que pode também mudar de ideias. Foi o que aconteceu comigo. Pensei que saira de uma relação longa com algum sentido de liberdade e alívio e, de repente, a vida transformou-se num autêntico inferno. Eu era apenas dele. A frase, como podem calcular, não é da minha autoria. Dizia-me ao telefone, escrevia em sms, entrou na minha conta do Facebook, telefonou à família e aos amigos, abriu um blogue com o propósito exclusivo de insultar as mulheres. Chegou ao ponto de anunciar ao mundo as nossas fotografias mais íntimas sempre com legendas esclarecedoras sobre a minha maldade, a minha eventual manipulação, a forma como dei a volta à cabeça dele para ganhar... Não se sabe o quê. Durante um ano e meio tive uma espécie de sombra, um homem com quem tive momentos muito bons transformou-se simplesmente num monstro. Porquê? Era a minha pergunta mais frequente. Hoje sei a resposta: o facto de ter sido abandonado era-lhe insuportável. Uma coisa era ter sido ele a terminar a relação, outra totalmente diferente era ter sido eu. Diminuia-o. Sem querer ser má, por não estar na minha natureza, fui arranjando desculpas, mudei de telefonei, bloqueio o acesso ao facebook, mudei as passwords de tudo, até de cartões de crédito. Estava, de certa forma, paranóica. Saía do trabalho para dar de caras com ele e a eterna pergunta: voltas para casa ou vais para a casa de outro? Com quem andas? Estava convencido que o deixara por outro. Que estava apaixonada. Nada mais errado. Não estava apaixonada por ninguém, nem por mim mesma, a minha auto-estima descerá à cave mais funda de todas e eu nem gostava de me ver ao espelho. A determinada altura pensei: talvez mereça isto. Uma amiga deu-me um safanão bem dado e fizemos planos para ir passar uns dias ao Algarve. Fomos. Quando chegámos, ele estava no mesmo hotel,  a beber uma cerveja, com um sorriso trocista que queria apenas dizer que não me livraria dele com essa facilidade. A minha amiga sugeriu que se contratasse alguém para lhe bater, um advogado para o ameaçar ou, então, de forma civilizada, ir à polícia. Fui. Trataram-me com enorme simpatia mas foram claros: até ser apanhado a fazer alguma coisa que seja deliberadamente contra a lei ou contra a minha pessoa, pouco podiam fazer. Dois dias depois, numa fila de automóveis, o carro à minha frente trava de repente. Bati. Quando vi o meu ex a sair do carro da frente tranquei as portas e chamei a polícia. Foi uma cena surreal. A polícia não aparecia, ele aos berros, os carros a apitar, o meu telemóvel sempre a tocar. Parecia estar dentro de um filme. Por fim, a polícia chegou. Não sai do carro, baixei ligeiramente o vidro e disse que já tinha tentado fazer queixa do indivíduo com quem tinha tido uma relação, que podiam confirmar com a esquadra da minha zona de residência, e que não ia sair do carro. Felizmente calhou-me uma polícia mulher, a quem dei todos os papéis para se fazer uma participação ao seguro. A polícia disse ao meu ex que era melhor ser uma coisa amigável não fosse ele ter mais problemas já que existia uma queixa contra ele na esquadra que eu fizera no dia anterior. Assustado, sem saber que nada podiam fazer, acabou por assinar a papelada do seguro amigável. E eu presa no carro. A mulher polícia veio ter comigo de novo e pediu-me para lhe contar a história que me ligava àquela criatura. As lágrimas escorriam pela cara, mas lá consegui coragem para contar tudo. A mulher polícia ia torcendo o nariz e, por fim, desabafou: cretino. Vi-a ir na direcção dele, ele tentou crescer para ela, ripostando e argumentando, mas o outro polícia interveio e tudo acalmou. Quando me mandaram seguir com o carro nem conseguia colocar as mudanças sem dar cabo da embraiagem, estava a tremer. Em vez de ir para casa, a minha casa, fui para casa dos meus pais. A minha mãe disse-me: querida, o melhor é mudares de casa e é já. Procurámos casas as duas, apartamentos T1 ou estúdios, não preciso de muito espaço. Os homens que foram fazer a mudança a minha casa deram de caras com o meu ex e este deu de caras com a minha mãe. Ela limitou-se a dizer que seria melhor ir pregar para outra freguesia, que tinha mudado de trabalho e que já nem ia viver em Portugal. Às vezes sinto-o. Nas ruas, nos cafés, nos restaurantes. Evito sair. Tenho receio de uma outra cena? Não é apenas isso, é a indignidade de não me sentir segura. Eu acreditava que este homem era diferente. Pelo menos houve um tempo em que acreditei que era o homem da minha vida. Podemos ser muito estúpidas, porque é óbvio que os sinais estavam lá, eu é que não os queria ver: a prepotência, o controle, as perguntas sucessivas sobre o que fazia e com quem. Na canção de Sting diz-se if you love somebody set them free. Calculo que é esse amor em liberdade é desejável. Nota: Entrevista recolhida por Patrícia Reis, escritora e editora da revista Egoísta
publicado por Vítimas de Stalking às 09:58
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