Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2011

Os Homens são Doidos? As Mulheres Também! - a experiência de Pedro

A ideia que todos temos é a de que os homens estão sempre prontos para o sexo, que deixam o tampo da sanita para cima e andam atrás das mulheres. Faz parte do imaginário colectivo. É a mesma coisa quando se fala de violência doméstica: pensamos logo num homem a bater numa mulher. Deve ser por isso que o filme “Atracção Fatal”, que inverte esta lógica que, na verdade, é apenas uma ideia feita, foi o sucesso que foi. A minha história é igual a de muitos: namorei, fiz asneiras, não fui cavalheiro muitas vezes (ou quando deveria ter sido), fui sacana e bonzinho e só levei poucas namoradas a conhecer a minha mãe. Sim, nesse aspecto sou um homem à antiga: mãe é mãe. O que importa este preâmbulo? Importa no sentido em que a minha vida se virou ao contrário quando me “enrolei” com uma mulher casada. Pior ainda: alguém que trabalhava comigo. No princípio era só doçura e sedução, sexo muito arriscado, no elevador, nas casas de banho e tudo isso preenchia, eventualmente, uma fantasia qualquer que, sem o saber, me agradava. Tudo isto foi perfeito durante um mês. Ao fim de um mês, digamos que o caldo se entornou. A minha amante de escritório estava preparada para deixar o marido. Para fazer de mim o homem mais feliz do mundo. Para passar a consoada – dali a 15 dias – com a minha família. A ter filhos e comprar um cão de uma raça qualquer para compor o retrato. Pode parecer ironia, mas não é. Fiquei siderado. Não estava apaixonado, nunca estive. Nunca lhe disse que a amava e, portanto, a seguir a um almoço e a ser confrontado com todas estas ideias brilhantes, fui honesto e disse que estava a ir depressa demais, que era casada, os casamentos não se terminam assim, que eu não estava preparado. Conforme fui vendo a reacção dela, fui suavizando o discurso, disse que a culpa era, obviamente, minha, eu é que sofro de imaturidade, já um amigo mo tinha dito e a minha mãe mo repetiu várias vezes. Enfim, joguei todas as cartas de bom senso que tinha ou julgava ter. Ela não abriu boca. Voltámos para o escritório, um espaço com divisórias de qualidade duvidosa, e aí começou o meu inferno. Mensagens internas com conhecimento para todos os nossos colegas. Eu tinha feito promessas que agora não queria cumprir, ela era uma pessoa íntegra que tinha posto o casamento em causa à conta das ditas promessas. Eu tinha manias que as pessoas não imaginavam. Em segundos, todos os meus colegas passaram a ter de mim uma ideia completamente distinta. E descobri, de imediato, que a acusação de assédio tinha sido virada contra mim. Admito que não é bonito uma pessoa enrolar-se com alguém que está comprometido, tudo bem. Mas quem fez os primeiros avanços foi ela e, depois de a ter tentado dissuadir de uma vida a dois que não conseguia sequer imaginar, ela decidira expor-me perante os meus colegas e chefes ao mesmo tempo que me mandava sms a cada cinco minutos com sucessivos insultos. Pensei que a coisa ia durar 24 horas. Tentei ignorar. Não. A senhora decidiu esperar-me à porta de casa. Continuou a mandar sms. Mandou novos emails com conhecimento para todos descrevendo as minhas reacções durante os nossos encontros. Conclusão? Eu era, peço desculpa pela expressão, um filho da puta. Os meus colegas já nem me olhavam nos olhos e comecei a ver que encolhia, que estava no deserto. Tentei falar com ela através do telemóvel. Não me atendeu. Mais tarde percebi porquê. Andou a mostrar a meia dúzia de pessoas a minha chamada não atendida, dizendo que era a milésima ou coisa que o valha. Quem é que não ia acreditar nela? O preconceito está estabelecido: as mulheres não fazem assédio, só podia ser eu. Para cúmulo, a senhora descobriu o número de telefone da minha mãe e ligou-lhe dizendo que estava destroçada, que tinha terminado o casamento por minha causa (nunca o fez e até hoje suspeito que o marido não sabe com quem vive) e chorou as lágrimas que iriam comover qualquer um. Em especial a minha mãe que, conservadora e de direita, achou tudo um descabimento incrível e chamou-me como se eu tivesse nove anos  de idade e não 35. Ouvi e ouvi e, no fim, tentei explicar a situação. Abri o meu computador portátil, mostrei os emails à minha mãe e expliquei tudo sem evitar qualquer pormenor, mesmo sendo ela minha mãe e uma senhora. Ouviu-me em silêncio e, no fim, suspirou: Filho, tens aí uma mulher doida. O que vais fazer? Falei com um amigo de infância, advogado. Descobri que não há legislação para estes casos. Garantiu-me que a senhora precisava de acompanhamento psiquiátrico de certeza e que o melhor que tinha a fazer era ir, de imediato, à direcção da empresa onde trabalhava para esclarecer o assunto. Não fiz nada disso, estava convencido que com o Natal tão próximo tudo acalmaria. Na noite da consoada recebi mais de 90 mensagens. Guardei-as todas. Meti uns dias de férias. Mudei o número de telemóvel. Estava completamente transtornado e a pensar que ela ia aparecer a qualquer momento. No dia 2 de Janeiro voltei ao trabalho.  O meu chefe chamou-me, fechou a porta do gabinete envidraçado e disse que a senhora tinha feito uma queixa de assédio e que eu estava em maus lençóis. Aí não me contive e contei tudo, mostrei as mensagens da véspera de natal, falei dos emails com conhecimento aberto para todas as pessoas da empresa e disse que não me importava de confrontar a senhora na presença de um advogado e com o marido da mesma, eu próprio me encarregaria de o chamar. O meu chefe, ligeiramente mais velho do que eu, encarou-me com algum espanto, mas vendo tanta convicção da minha parte, anuiu. Chamou a senhora, eu mantive-me sentado. Tive medo, não me envergonho de dizer, achava que ela se podia transformar num bicho de repente. Ela chegou com ar de vitória que até dava vontade de lhe bater. Tentei não olhar. O nosso chefe disse que só havia duas soluções, a primeira seria chamar advogados e o marido dela e mostrar os emails e as sms que ela me enviara e eu guardara ou ela desistir da acusação e ser mudada de departamento. Nesse instante, não sei porquê, mas sentindo que estava a sufocar, levantei-me e disse que não era preciso mandar a senhora embora. Eu é que ia. Ficaram os dois a olhar para mim com surpresa. Sai da sala e disse alto e bom som para todos ouvirem: o próximo que for vítima desta senhora faça o favor de guardar as mensagens, os emails e ir a polícia. Se alguém é amigo dela, por favor, levem-na ao médico. Eu vou-me embora. Estive dois meses desempregado. Deixei Coimbra e vim para Lisboa. Mudei as contas e passwords de contas de email e não adiro a redes sociais. Os homens são doidos? As mulheres são iguais. Acho que a questão do assédio não tem género. Nota: Este testemunho foi recolhido por Patrícia Reis, escritora e editora da revista Egoísta
publicado por Vítimas de Stalking às 18:45
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