Quinta-feira, 1 de Dezembro de 2011

"A sua vida não é uma vida, é um desperdício" - a história de Marta

Tive uma vida complicada. Os meus pais não foram exemplares e a minha família, como tantas outras, era disfuncional e desordenada, com muita hostilidade pelo meio. Cresci sempre no medo. Quando arranjei o primeiro namorado foi como um refúgio. Tinha 17 anos. Namorámos oito anos. Aturei coisas do meu namorado que, agora, sei terem sido erradas. Não podia vestir determinada roupa. Deixei de ter amigas, ele não deixava. Não podia ver certas coisas na televisão. Estava condicionada. Presa e censurada a tempo inteiro. Ele tem mais cinco anos que eu. A primeira vez que me bateu namorávamos há um ano e pouco. Fartou-se de chorar e pedir desculpa. Não vou relatar os restantes incidentes porque só me humilham e comprovam a idiota que fui durante tanto tempo. Quando chegámos ao auge do poder que tinha sobre mim e ao medo que eu tinha dele, fui abordada por uma mulher num café. Disse-me: ninguém com a sua idade merece ser infeliz e essas nódoas negras não são de acidentes. Já aí esteve. Se não sair dessa relação a sua vida não é uma vida, é um desperdício e será uma inválida afectiva para o resto da vida. Nem queria acreditar que a minha realidade estivesse assim tão transparente. Ou talvez aquela mulher tivesse sido o meu anjo da guarda. Não sei. Perguntei a uma amiga se podia mudar-me para casa dela, tinha um quarto a mais, estava aflita com as contas do mês e sempre era uma ajuda, eu podia pagar uma renda. Ela concordou de imediato e, às escondidas, durante a tarde, faltando ambas ao emprego, mudámos as poucas coisas que eu tinha. O meu namorado, companheiro ou carrasco, como quiserem, não achou graça nenhuma a este gesto de libertação. Não gostou de ser confrontado com uma carta em que lhe dizia que não era feliz e que ele não podia ser feliz com alguém como eu e, por isso, decidira sair de casa. No entendimento dele, eu não tenho capacidade de tomar decisões, sejam elas de que ordem forem. Posso imaginar o momento em que leu a carta, mas pouco importa. No dia seguinte estava à porta da loja onde trabalho e ali esteve as oito horas do meu turno. Nem comi, nem fui à casa de banho. Para sair da loja a minha colega teve a ideia que o melhor seria chamar o segurança e assim fiz. O segurança foi simpático levou-me até ao metro. Como é maior que o meu ex namorado, ele deixou-se ficar para trás e quando tentou entrar no mesmo metro, o segurança agarrou-o pelo braço. Não sei o que lhe disse, mas no dia seguinte ele não estava em frente à loja. Começou então outra forma de me torturar. Telefonava para a loja, para o meu telemóvel (que acabei por substituir) e ficava em silêncio. Percebi que se estava a masturbar enquanto eu lhe dizia: Acabou, não faças isto, deixa-me ir, não te canses comigo, há aí melhores que eu. Foi horrível. A única coisa boa nesta história é que ele desconhecia por completo os amigos e amigas que mantive às escondidas e, por isso, não sabia onde me procurar. Os meus pais não eram nenhuma ajuda, não temos relação. Nem nas festas ou aniversários. É como se não existissem. Dois meses depois da separação, dos telefonemas e da cena no metropolitano, vi-o na rua. As minhas pernas tremeram tanto que tive de me agarrar à parede de um prédio. Estava pronta até para fazer nas calças, nunca tanto medo de alguém. Ele sorriu e, em vez de vir ter comigo, aos gritos ou com o punho no ar, vi-o olhar para dentro de um café e percebi: estava outra desgraçada no meu lugar. Enchi-me de coragem e fui directa aos dois. Olhei para ele com o maior desprezo que consegui e depois olhei para rapariga, já com o terror na cara e disse-lhe: aviso já que está um polícia naquela esquina, por isso, nada de cenas. Olha, já namorei este tipo ou te livras dele agora ou vais ter uma vida desgraçada. Posso garantir-te. Ele puxou-a e seguiram rua acima, eu vomitei o almoço mesmo ali. Nota: esta entrevista foi recolhida por Patrícia Reis, escritora e editora da revista Egoísta

publicado por Vítimas de Stalking às 19:01
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1 comentário:
De cs a 6 de Fevereiro de 2012 às 17:13
Boa tarde, finalmente vejo que existem pessoas que passam ou passaram pelo mesmo que eu! Depois de 5 anos de perseguição ainda ouvia comentários de conhecidos do tipo: ah ele gosta mesmo de ti! ou és a mulher que ele amou verdadeiramente! Por favor! Quem é que ao fim de anos a ser perseguida pode achar que é amada por essa dita pessoa? Deixarmos de fazer a nossa própria vida, deixara de frequentar determinados sítios com receio de ser incomodada ou incomodar os nossos amigos. Eu tive uma relação que terminou ao fim de 3 anos mas que na realidade me roubou 8 anos de vida devido a esta perseguição.
Sou solteira, vivo sozinha e cheguei a sentir medo de vir para a minha própria casa, pois o dito senhor me esperava à porta de casa. Se ia a um café ele aparecia, se ia a um bar ele aparecia, basicamente ele era que nem Deus: omnipresente! tinha 29 anos e estamos a falar de um homem que tinha 30, não estamos a falar de um garoto.
Durante anos vivi com medo de tudo, primeiro ele começou por me ligar e tal como a Maria João numa noite a bateria do meu telemóvel acabou porque no espaço de 2 horas me ligaram 98 vezes isto depois de me terem enchido a caixa postal com 25 mensagens! Achei que o melhor era ignorar e seguir em frente com a minha vida, mas a determinada altura o "Senhor" decidiu andar atrás de mim de carro e quando finalmente achei que o tinha perdido de vista regresso a minha casa por volta das 5 da manha, deito-me, e a passado 2 horas eis que a minha campainha começa a tocar desalmadamente e quem era? o dito!
Claro que durante todos estes anos várias histórias se sucederam, desde ameaças contra a vida dele se eu não voltasse, às quais ignorei passando ai ás ameaças contra a minha própria vida e foi numa dessas noites de perseguição que decido parar na esquadra da PSP para apresentar queixa e por incrível que pareça a resposta foi a mesma que a sua: Bem menina esse senhor gosta mesmo de si! Isso é que é amor! Não isto não é amor, isto é loucura ! Ninguém no seu estado normal faria isto! Eu tive que deixar de viver a minha própria vida, tive inclusive que ir viver para casa de uma amiga durante um mês tal era o receio de quem iria encontrar á porta de casa. Esta situação durou 5 anos e ainda hoje recebo chamadas durante a noite de números privados que atribuo a essa pessoa. Acho que as coisas não acabaram da pior maneira porque a pessoa na sua loucura era também bastante cobarde o que não permitia que ele me abordasse quando eu estava junto de outras pessoas, ou seja basicamente eu tive amigos a quem agradeço e peço desculpas desde já, que arrastei comigo para todo o lado que ia e que acabavam por ter a vida deles também invadida porque pura e simplesmente andavam comigo.
Peço a quem de autoridade que passe a olhar para estes casos com olhos de ver! Não falo só pela nossa privacidade que é invadida, pela nossa reputação que pode ficar muito má devido aquilo que essas pessoas acabam por dizer sobre nós aos nossos amigos, nossos conhecidos ou nos nossos empregos, falo pelos danos que pode causar á nossa integridade física Qualquer coisa pode acontecer quando nos perseguem numa auto estrada durante a noite a 180 km /h.

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