Quarta-feira, 30 de Novembro de 2011

Assédio depois de vinte anos de casamento

  O meu nome é Filipa. Tenho 44 anos, dois filhos. Fui casada durante vinte anos com um homem que, percebo agora, tinha um poder sobre mim enorme, um poder que lhe dei. Talvez tenha sido por termos começado a namorar novos e termos casado novos. Há três anos saí de casa com os meus filhos e fui refugiar-me em casa da minha irmã, solteira. Falei com uma advogada amiga e, tinha tanto medo de encontrar o meu marido, que passei a não usar telemóvel. Ele telefonou à minha irmã várias vezes e, muitas, durante a noite. Acabámos por desligar o telefone da ficha para termos alguma paz. Ameaçou primeiro os meus pais, ambos já com uma certa idade e, como seria de esperar, a minha irmã. Ficou à espera que ela saísse do emprego e ameaçou-a de tudo, insultando-a de uma forma grosseira e desnecessária, especialmente em público. Os miúdos falavam com o pai através dos telemóveis e, nos primeiros dias, a atitude do outro lado foi pacífica. Ao fim de uma semana, percebendo que não voltava para casa, nem me encontrava (eu não saí de casa da minha irmã, meti férias e nem me atrevia a olhar pela janela, tal era o medo) disse ao meu filho: passa o telefone à cabra da tua mãe. Assim, tal e qual. O meu filho, com 13 anos, não ficou apenas chocado. Desligou o telefone e fartou-se de chorar. Como é fácil de perceber já tínhamos falado várias vezes sobre a minha decisão que a minha filha sempre considerou “tardia”. Ela tem agora 16 anos e é muito independente. Para quê acabar com um casamento de 20 anos? Além dos diferentes abusos ao nível psicológico, o copo entornou-se mesmo quando o meu marido me bateu. Nunca pensei que fosse capaz de o fazer. Estava habituada – mal habituada – a ser insultada, outra forma de agressão, mas em termos físicos ele nunca tinha ido tão longe. A nossa situação era de fachada. Parecíamos um casal maravilha, dentro de casa era um inferno. Eu acreditava que tendo saído de casa, com a intervenção da advogada que entrou em contacto com ele, tudo se resolveria. Rezava por isso. Deus não me ouviu, certamente ocupado com outras coisas. Durante dois anos fui vítima de uma perseguição absurda e doentia que me levou à policia muitas vezes. Tantas vezes fui à mesma esquadra que, assim que estacionava o carro, já com o carro do meu marido atrás de mim, os agentes saiam em grupo e eu entrava na esquadra. Em resumo: os meus filhos tiveram de passar pelo Tribunal de Menores. Várias vezes. Houve uma avaliação da minha história e da história do meu marido que se resumia ao facto de o ter deixado sem qualquer razão. Tive de arrastar a minha família para o processo, de forma a existirem testemunhas abonatórias do meu lado. Ao mesmo tempo, sem qualquer pudor, o meu marido, ainda marido, continuava a aparecer na escola dos miúdos, no meu emprego – sou funcionária bancária -, nos restaurantes onde almoçava com colegas. Um dia chegou a insultar um dos meus colegas, homem, avisando-o que eu era um das piores pessoas do mundo. Confesso que a minha fragilidade atingiu um limite. Fui a uma psiquiatra a conselho da médica de família e fiquei de baixa durante um mês. O pior de tudo não era sair à rua ou saber que ele ia telefonar e insultar, o pior eram os meus filhos, tê-los arrastado para uma situação destas. Estivemos nesta situação quase três anos. A situação resolveu-se de forma inesperada, ou talvez não. O meu marido arranjou uma namorada, claramente uma mulher com algumas posses financeiras e, de repente, o divórcio até lhe era vantajoso. Avançámos com rapidez, a advogada e eu. No tribunal de menores, os meus filhos disseram que não queriam ver o pai. O meu ex chorou. Nunca me senti tão fria e indiferente perante alguém, alguém que fez parte da minha vida durante tanto tempo. Tempo a mais. Quando o tal namoro acabou, o meu ex marido voltou à carga. Conversa mole ao telefone que se resumia ao “vamos tentar de novo” e coisas deste género. Nunca cedi. O namorado da minha irmã, completamente farto de tudo isto, chegou um dia a casa e viu o carro do meu ex estacionado à porta. Foi direito a ele, abriu a porta e puxou-o cá para fora. Disse-lhe meia dúzia de coisas e voltou a enfiá-lo no carro. O meu ex desapareceu. Nunca perguntei ao meu futuro cunhado o que foi que lhe disse, mas posso imaginar. Nota: entrevista recolhida por Patrícia Reis, escritora e editora da revista Egoísta
publicado por Vítimas de Stalking às 00:07
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